• Ana Carolina Grassi

Aprendizado e as histórias que me (contaram) ensinaram.


Aprendizado e as histórias que me (contaram) ensinaram.

Quando me convidaram para preencher este espaço pensei em recusar. Não por falta de tempo ou interesse, mas por questionar: o que poderia eu compartilhar que já não fosse óbvio?

Comentei sobre este limbo mental no qual me encontrava com um parceiro de trabalho e a resposta, em palavras que não sou capaz nem de parafrasear, me fez lembrar que o óbvio só existe para quem já o conhece.

Nada é tão nosso quanto as nossas histórias e, na minha humilde opinião, elas são poderosas fontes de aprendizado. Assim, de hoje em diante, apresento as minhas histórias e os aprendizados que fazem parte dela, e vice-versa.

Minhas histórias... Na primeira série (sou da época em que a nomenclatura era essa) do ensino fundamental, existia um trabalho sobre animais: cada estudante sorteava um para pesquisar e aprender sobre, até o final do ano quando uma apresentação sobre como era a vida daquele animal seria feita. Como “boa” perfeccionista, moldada em um processo educativo do qual não falaremos agora, comecei a procurar dados e números de jacarés – o meu sorteado. Ao mostrar para a minha melhor revisora, mundialmente conhecida como mãe, ela questionou apenas uma coisa: em que todos esses dados estão contando como é a vida do jacaré?

Comecei a contar como era a vida desse bicho, costurando os fatos encontrados em minha coleção Conhecer, fazendo experiências com vinagre e ossos de galinha para compreender sua digestão,... vivendo aquela história, aprendendo. O resultado do meu trabalho foi o diário de Jaca, o jacaré. Até hoje eu lembro de tudo o que o Jaca fazia e os porquês, mas não faço ideia da nota que obtive – ainda bem!

Em uma aula de ballet, aqui já como professora, uma aluna minha estava com dificuldades em piruetas (coincidentemente, meu pesadelo pessoal) e me falou que queria desistir daquele passo. Como primeira reação falei que tudo bem, ela poderia desistir, mas como professora eu precisava explicar que ao escolher não girar ela provavelmente ficaria com opções mais limitadas de coreografias para interpretar. Além disso, contei a minha história com os giros, e sobre como eu também já havia pensado em desistir.

Não me surpreendi quando ela perguntou: então, como você fez para aprender? Ao invés de tentar explicar pedi que ela me contasse a trajetória dela com os giros, mas ela questionou: por quê? E eu expliquei que era a única forma de eu entender melhor uma história que não é minha. Dali em diante fomos cruzando histórias de aprendizados para ela poder escrever a dela. (Não precisa ficar na curiosidade, no espetáculo seguinte ela girou – ainda com receio, mas fez \o/)

Por que compartilhar tantos capítulos da minha história? Porque é o que não é óbvio para ninguém, além de mim, porque é a minha experiência que pode ser relacionada à uma série de fatos e dados. Porque, como diria Jonathan Anthony, "share is the new save". E porque se Newton tivesse apenas guardado para si a experiência de notar a queda de uma maçã e sua teoria sobre existir uma lei da física que explicasse o fenômeno, Einstein não teria aperfeiçoado seus estudos e um bocado de fatos que tentam nos passar porque cairá em alguma avaliação jamais teria chegado à uma apostila sequer.

Sempre aprendi muito mais quando existia uma história ligando os fatos, algo que me motivasse a aprender aquilo. O que, neurologicamente falando pode ser explicado pelo fato de que ao ouvir um dado em uma aula ou reunião, apenas dois pontos do nosso cérebro são ativados, enquanto acompanhar uma narrativa ativa todos os pontos desse músculo incrível.

Em resumo, como é dito no vídeo: dados não mudam comportamentos, emoções sim. Histórias sim.

Lembro quando meu avô voltou de uma viagem à Grécia e quis compartilhar comigo cada detalhe do que havia aprendido lá, mas minha versão com, à época, 6 anos não se interessou muito. Para a sorte da desilusão dele, a Disney lançou pouco depois a animação Hércules, que me fez sair correndo para entender mais sobre politeísmo, o contexto grego daquele cenário e virar a maior ouvinte de todos os mitos que meu velho quisesse compartilhar.

Saber a história é entender o contexto, um ponto de partida poderoso para um processo de aprendizagem, e uma forte estratégia para que o mesmo atinja os resultados - algo que ficou mais destacado para mim com o enfoque de sua exploração na área de educação corporativa. Quer se contextualizar? Veja aqui.

Se ainda me couber um tanto de espaço para compartilhar aqui, seguem algumas dicas aprendidas na minha história (algumas vezes a partir de outras): - Não espere a história perfeita. “Sua sabedoria é resultado dos episódios mais traumáticos que viveu”. E se Edith Eva Eger esperasse pela perfeição, jamais contaria a história da bailarina de Auschwitz.

- Não aprenda com apenas uma história. Sim, “As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar.Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada.” E é por isso que curadoria é importante para te proteger do que Chimamanda Ngozi Adichie chamou de O perigo de uma história única.

-Tenha aliados e compartilhe. O cruzamento de histórias sempre fortalece os dois caminhos.

- Lifelong learning. Enquanto viver existe uma história sendo escrita. Quantos aprendizados existirão a partir da sua? Quantos deles escreverão a sua história?

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